Genialidade #01: Clara Crocodilo

December 6th, 2010

Arrigo Barnabé representa uma estética de transgressão musical pouco digerida e aceita pela crítica. A música que antecede Clara Crocodilo – do vídeo acima – explica o surgimento de Clara: um Office-Boy que, para conquistar uma chacrete, ofereceu-se como cobaia para testar produtos, em troca de dinheiro, como previa um anúncio de jornal. Arrigo Barnabé sugere o desfecho: Mas, o que ele não sabia, é que estava sendo transformado num terrível monstro mutante, meio homem, meio réptil, vítima de um poderoso laboratório multinacional que não hesitou em arruinar sua vida para conseguir seus maléficos intentos. Os cientistas haviam calculado tudo, mas o que eles não sabiam era que aquele ser disforme conservava parte de sua consciência. E logo todo seu poder se transformou em fúria e violência sobre-humana. Os cientistas foram os primeiros a conhecer sua ira. Depois a cidade estremeceria ao ouvir falar em Clara Crocodilo”. A genialidade se encontra na letra de Clara Crocodilo – veja no vídeo acima – e na figuração da Clara na composição sonora – ela é instrumentalizada e convertida em timbres de saxofone, guitarra e teclado que riscam faíscas da existência de Clara Crocodilo.

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June 1st, 2010

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Por conta da pluralidade de segmentos e das preferências individuais, cada manifestação artística tem seu público específico. No cenário musical não é diferente. Um determinado estilo forma um público com sujeitos que compartilham das mesmas características culturais, sendo algumas destas tribos sociais um tanto ridículas, como os fãs da banda Móveis Coloniais de Acaju.

Os doutrinados pela banda brasiliense são facilmente identificáveis: universitários pseudo intelectuais que desdenham o senso comum, vestidos alternativamente, citadores dos clássicos, burgueses complexados, egocêntricos e prepotentes.

A banda parece ter sido feita especialmente para eles. Começando pelo nome, posto em homenagem a uma revolta do século XVIII que não tem comprovação histórica, que nas palavras da banda é um nome “absurdo, nonsense, multidisciplinar e irreverente” – caracterização que serve também para as músicas da banda.

Em uma análise superficial das letras já encontramos indícios do ideário da banda. Veja um trecho da letra Perca Peso:

Deixe de lado o jogo de faca dos seus sonhos
E vá buscar seu cachorro no cabeleireiro

Aqui encontramos uma crítica sem embasamento, ridicularizando dois traços da cultura pós-moderna – o consumismo premeditado e a humanização do animal doméstico – sem propor uma causa ou solução para ambos comportamentos.  É a típica crítica clichê à classe média-alta – da qual pertence a maior parte dos fãs da banda. Segue um trecho da música Seria o Rolex?:

Penso, dispenso explicações
Não controlo meu super-ego
Impossível entender minha tristeza
Já desisti não existe porquê
Sou apenas mais um alegre deprê

Este trecho da música  explicita traços psicológicos dos fãs da banda. A ideia de controlar o “super-ego” – termo freudiano de teor acadêmico, que inserido na música gera um certo elitismo –, a tristeza incompreensível – que soa mais como um sentimento forçado, sem justificativas, como quem não encontra espaço no “mundo medíocre” – e, por fim, o uso da abreviatura “deprê”, típico de universitários que querem construir um vocabulário próprio, na busca de uma identidade que massageie seus egos.

Outra característica presente em quase todas as letras é a referência a personagens e eventos históricos, de forma nonsense, sem nenhuma coerência, com a finalidade única de ostentar “intelectualidade”, como podemos observar na música Copacabana:

Gorbatchev para uma série de palestras
(…)
Fofocando sobre a Perestroika

Um pouco mais verborragia nonsense com personagens históricos na música Receio do Remorso:

Fellini, Buñuel, Pasolini e Fidel
Numa roda de samba em Havana
Poderia ter sido interessante
Poderia ter sido muito interessante

O desprezo com o senso comum, a sensação de superioridade e a diferenciação da “massa acéfala midiática” na música Esquilo Não Samba:

Não vou mentir
Na sua média você será
Medíocre

Eles ainda têm uma música com um texto em francês no meio. Os intelectuaizinhos também versificaram o ditado “cego é aquele que não vê”. O espetáculo do ridículo e do risível não para por aí, saiu um artigo no site oficial da banda adestrando a plateia a não subir no palco – o autor do artigo tenta lançar argumentos para convencer os fãs da banda, o que torna o texto mais idiota ainda. Os integrantes também não fogem da regra: perguntaram para o vocalista André Fonzales o que ele faz e ele respondeu que “emiti ondas sonoras graves acompanhadas de movimentos corpóreos incompreensíveis”.

Deixo para esta geração de intelectuais do epíteto uma frase do mestre Millôr Fernandes: [pseudo] Intelectual é um cara capaz de chamar a galinha em meia dúzia de línguas diferentes, mas pensa que quem põe o ovo é o galo…

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