Desconstruindo a Bíblia

Alguns dias atrás pensei em escrever um conto de ficção científica, passado no século 23, em um contexto em que nenhuma religião sobreviveu, onde as catedrais promoveriam raves turísticas. A igreja seria um lugar folclórico dando espaço para um evento com características um tanto condenadas pela moral cristã. Uma ficção de cenário excêntrico, mas não tão longe de uma possível e futura realidade.
Não faço parte daquela linhagem de ateus entusiastas que pregam calorosamente o fim de todas as crenças e religiões, mas não caminho tão longe do estereótipo radical, até por que às vezes penso que o fim do teísmo seria um avanço para a civilização.
Para os que acham plausível a existência de um homem invisível, vou apresentar argumentos que contestam a validade da bíblia – livro irrefutável do judaísmo e cristianismo. Para os que acham uma estupidez acreditar em um homem invisível, ofereço só mais ração ideológica.
O avanço da psicologia, das teorias filosóficas, da medicina neuropatológica e dos índices de alfabetismo sentenciam as religiões. Ainda assim religiosos xiitas saem às ruas pregando suas estupidificantes convicções, com suas retóricas de auto-ajuda, sempre alimentando seus repertórios argumentativos com a bíblia – documento antiquado e defasado.
Não vou negar a plausibilidade da bíblia com averiguações científicas, tampouco invalidar sua verossimilhança pelo caótico processo histórico em que foi constituída, muito menos apontar que um livro com passagens tão perversas não poderia servir de guia moral, nem mostrar como a bíblia oferece péssimos exemplos. Minha objeção se vale de um argumento mais simples: as próprias escrituras bíblicas desafiariam a credibilidade da mesma.
Existem uma série de contradições gravíssimas na bíblia, e sendo uma criação humana inspirada por deus, considerando que deus não erra e não mente, os erros seriam imputados obrigatoriamente aos homens que a escreveram.
Se há erros na transcrição da realidade histórica para os escritos bíblicos, não podemos usá-la como documento histórico, é uma fonte pouco confiável, pode ser nada mais que uma terrível distorção das palavras de deus.
A bíblia é, portanto, um livro inútil que não deveria doutrinar religião alguma.
Só confirma minha tese: ainda teremos aquelas raves no espaço das igrejas.
O que achas?
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Deus Mutante, Multifacetado, Indeciso, Inconstante

“primitive” – Denise Freitas.
Basta um resgate histórico para perceber que o Deus contemporâneo é um Deus multifacetado. Um Deus inseguro, que muda e redireciona seus comportamentos de maneira estupidificante.
Sebastien Faure lançou doze argumentos que negam a absurda existência de Deus. Em um deles, defende que “o ser eterno, ativo, necessário, não pode, em nenhum momento, ter estado inativo ou ter estado inútil”. A ideia é a de que antes de criar o mundo, Deus era inútil, preguiçoso e supérfluo. Em um determinado momento este Deus resolveu criar o universo – encontramos aí um traço forte de dupla personalidade.
Nosso Deus, inicialmente, tem duas personalidades: ocioso e criador.
A origem da fala humana data há algumas décadas. A linguagem suscitou a capacidade de pensar, e para explicar fenômenos naturais e existenciais foram criados Deuses ao longo da história. Seria exaustivo e dificílimo pesquisar sobre a origem do “agradecimento” como traço sócio-cultural. E foi a partir do surgimento dele, que o homem passou a agradecer a Deus – e ele, a partir desse momento, precisa e gosta dos agradecimentos dos subalternos.
Nosso Deus, agora, tem três personalidades: ocioso, criador e ditador.
O homem, como conhecemos hoje, tem 200.000 de anos na Terra e somente nos últimos milênios Deus decidiu inspirá-lo a escrever a bíblia. O feito foi uma forma disfarçada de burocratizar a fé e a moral humana – não entrarei na interessante questão da bíblia não servir como guia moral.
Nosso Deus, agora, tem quatro personalidades: ocioso, criador, ditador e burocrático.
Tanto os episódios bíblicos como históricos nos munem de novos padrões de comportamento do todo poderoso, possibilitando listar várias faces do criador.
Deus, realmente, é uma piada.
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Juízo Final de Michelangelo e Marten de Vos

Juízo Final (1534~41) – 13,7 m x 12,2 m – Michelangelo Buonarroti.

Juizo Final (1570) – 263 x 262 cm – Marten de Vos.
O evento cristão que separa a vida terrena do paraíso – ou do inferno – é o chamado Juízo Final (tendo na Divina Comédia de Dante sua primeira aparição na arte). Duas pinturas do século 16 ilustram o evento: o primeiro quadro – de Michelangelo – é renascentista com características maneiristas; o segundo – de Marten de Vos – é genuinamente maneirista.
Ambos são pinturas religiosas. Ambos quadros estão presos na crença do geocentrismo – quando observamos a presença dos elementos inferno, terra e céu. Ambos situaram no centro do cenário a figura de cristo como um “juiz”. Ambos tratam os anjos como comunicadores, portadores de uma trombeta (seria a língua que os anjos usariam para convocar as almas). Ambos mostram um lugar infestado de gente – como se o purgatório fosse compacto ou o mundo muito grande. Ambos retratam pessoas sóbrias – nem alegres, nem tristes -, que, penso, ser uma característica comum nas obras da época.
O segundo trabalha muito mais com os contrastes e, sem dúvida, Marten de Vos tem um domínio maior da perspectiva do que Michelangelo. O segundo, apesar de ser menor, é muito mais detalhado, com pinceladas muito mais precisas. O primeiro encontra-se na Capela Sistina – no Vaticano -, o segundo em algum museu por aí.
A maior semelhança entre os dois é a de retratarem um lugar que não existiu, não existe e não existirá.
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Veganistas e o Discurso Anti-religião
Meio a uma multidão, um ou dois gritam em nome dos direitos animalísticos. Eles, os paladinos da fauna, sustentam a tribo em um tripé: vegetarianos, veganistas e simpatizantes.
A militância aparenta conduzir a uma utopia: estabelecer uma relação equitativa entre os animais racionais e os irracionais. Os meios são simples: boicote e propagação da argumentação veganista.
A base ideológica embasa-se na luta contra o especismo, na tentativa de sucumbir a exploração dos animais. Em roupagens marxistas, eles seriam contra um tipo de “Luta de Espécies”. O argumento primário é a ideia de senciência de alguns animais irracionais.
O Wikipédia define senciência como:
“(…)a capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade(…)”
A maioria dos dogmas religiosos defendem a subserviência por parte dos animais, sendo eles criações divinas tributárias ao homem. Se o discurso religioso vai contra a maré veganista, seria de bom tom os habitantes destas águas manifestarem uma concepção anti-religiosa. Esse é o ponto que defendo.

As posições religiosas a respeito surgiram após algumas questões:
- Se Deus fez ambos (racionais e irracionais) e os considera seus “filhos”, os animais não deveriam louvar ao Pai todos os dias? Se não o fazem por serem diferentes, logicamente eles não podem ser iguais – e dignos do mesmo respeito. Portanto, estão aqui para servir o homem – o preponderante filho de Deus.
- Se Deus criou tudo com o mesmo “amor”, ele não pode ser imagem e semelhança de um homem, pois seria anti-democrático. Deus teria que ser uma entidade amórfica.
- Se eles são iguais a nós e não louvam o pai, porque precisamos fazê-lo?
É notório que a “palavra de Deus” já legitimou a morte de multidões, e com os animais não poderia ser diferente. Na Grécia antiga, por exemplo, os animais eram sacrificados na noite que antecedia os combates, como oferenda ao Ares, Deus da Guerra.
As civilizações contemporâneas estão construídas e fundamentadas na crença de um homem-invisível. Sendo assim, qualquer doutrina subversiva aos valores modernos tenderá à anti-religião.
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Deus no Divã
- Saudações Sigmund! Quem diria que, um filho meu, desafiaria minha própria existência?!
- Por uma questão de educação retribuo suas saudações, Criador. Mas persiste minha descrença.
- Problemático, diria. Qualquer mente um pouco lógica teria plena consciência de que alguém precisou criar tudo isso.
- Qualquer mente obsessiva…
- Cale-se Freud. Esta parecendo aquele meu outro filho herege lá…
- Karl Marx?!
- Exato!
- Não vou, por enquanto, questionar a falsidade de sua existência. Deite no divã! Meu sonho é aplicar a psicanálise em Deus!
- Faremos um acordo.
- Pois fale!
- Lembre-se que o último que traiu um acordo meu, foi para as demoníacas trevas.
- Prossiga!
- Deite primeiro no divã. Se eu lhe convencer, com suas palavras, da minha existência, você aposenta seus estudos sobre os mecanismos psíquicos que eu, sutilmente, criei!
- Parece seguro no que diz!
- Com efeito!
- Sendo assim, não seria provocativo inverter os papeis: se eu provar, com suas palavras, que você não existe, você some daqui e não atrapalha mais minhas noites de estudos.
- E se você falhar?
- Caso eu não consiga tal feito, deitarei no divã e terei a honra do Criador de Tudo aplicar minha psicanálise em mim.
- Aceitável. Pois deitarei.
- Vamos começar com uma pergunta básica: se uma das suas características é a onipotência, porque precisou de sete dias para criar o mundo?
- Não sei. É divertido fazer as coisas aos poucos.
- Segunda e fundamental pergunta: se é onisciente, por que liga que os humanos atribuam-lhe crédito pela origem do universo?
- É uma questão, simplesmente, de autoria.
- Porque precisa do amor de seres tão pequenos perante você, como os humanos?
- Assim como os cachorros manifestam afeto pelo seu dono, vocês precisam ter um certo amor por mim, o Criador de Tudo!
- Fabulosa comparação: Homem está para Deus, assim como cães para seu dono.
- Abstenha de sarcasmos, Freud! Pelo amor de mim!
- Passamos para a próxima: considerando que possuímos o livre-árbitro e que você conhece o futuro, por que não nos manda direto para o céu ou para o inferno?
- SEM MAIS UMA PALAVRA!
Morre, aos 83 anos, o psicanalista Sigmund Freud. A causa foi uma overdose de morfina para aliviar o sofrimento de um câncer na mandíbula. Freud passou por trinta e três cirurgias e não teve intervenção divina que curasse o hematoma.
(Londres, 23 de setembro de 1939)
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Categoria Heresia Terminal | Comentários (7)













