Os Intelectuais e o Poder, por Foucault e Deleuze

January 30th, 2011


The Accused – Álmos Jaschik (1885 – 1950, Hungary)

“Michel Foucault: o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da “consciência” e do discurso também faz parte desse sistema. (…) a teoria não expressará, não traduzirá, não aplicará uma prática; ela é uma prática.”

“Gilles Deleuze: Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante… É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou.(…) A teoria não totaliza; a teoria se multiplica e multiplica.

“Michel Foucault: Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar.

“Gilles Deleuze: Não são apenas os prisioneiros que são tratados como crianças, mas as crianças como prisioneiras. As crianças sofrem uma infantilização que não é a delas. Neste sentido, é verdade que as escolas se parecem um pouco com as prisões, as fábricas se parecem muito com as prisões.

“Michel Foucault: A luta anti-judiciária é uma luta contra o poder e não uma luta contra as injustiças, contra as injustiças da justiça e por um melhor funcionamento da instituição judiciária. Não deixa de ser surpreendente que sempre que houve motins, revoltas e sedições o aparelho judiciário tenha sido um dos alvos, do mesmo modo que o aparelho fiscal, o exército e as outras formas de poder. Minha hipótese – mas é apenas uma hipótese – é que os tribunais populares, por exemplo no momento da Revolução Francesa, foram um modo da pequena burguesia aliada ás massas recuperar, retomar nas mãos o movimento de luta contra a justiça. E para retomá-lo, propôs o sistema do tribunal que se refere a uma justiça que poderia ser justa, a um juiz que poderia dar uma sentença justa. A própria forma do tribunal pertence a uma ideologia da justiça que é a da burguesia.

“Michel Foucault.E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, investida em toda parte, que se chama poder. A teoria do Estado, a análise tradicional dos aparelhos de Estado sem dúvida não esgotam o campo de exercício e de funcionamento do poder. ”

“Michel Foucault: forçar a rede de informação institucional, nomear, dizer quem fez, o que fez, designar o alvo – é uma primeira inversão de poder, é um primeiro passo para outras lutas contra o poder. ”

“Gilles Deleuze: Há investimentos de desejo que modelam o poder e o difundem, e que fazem com que o poder exista tanto ao nível do tira quanto do primeiro ministro e que não haja diferença de natureza entre o poder que exerce um reles tira e o poder que exerce um ministro. ”

OS INTELECTUAIS E O PODER, Conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze (tradução Roberto Machado)

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Jean-Jacques Rousseau, por Gilles Deleuze

January 22nd, 2011


The Grand Tour (2000) – Walton Ford

“(…) não se pode admirar Kafka sem rirmos ao lê-lo.”

O estado de natureza é um estado no qual o homem está em relação com as coisas, e não com outros homens(…)

“Não há maldade humana que não se inscreva em relações de opressão, conforme interesses sociais complexos.”

A sociedade nos coloca constantemente em situações em que temos interesse em ser malvados.

“Como evitar as situações em que nos interessa ser maldosos? Sem dúvida, uma alma forte pode, por um ato de vontade, agir sobre a própria situação e modificá-la. Por exemplo, pode-se renunciar a um direito de herança para não estar na situação de desejar a morte de um pai.”

“É sempre no passado que amamos, e as paixões são doenças próprias à memória.”

O mal, na sociedade contemporânea, é que nós não somos mais nem homem privado nem cidadão: o homem tornou-se “homo oeconomicus”, isto é, “burguês”, animado pelo dinheiro.

A verdadeira correção pedagógica consiste em subordinar a relação dos homens à relação do homem com as coisas. O gosto das coisas é uma constante na obra de Rousseau (os exercícios de Francis Ponge têm algo de rousseauniano). Daí a famosa regra de Emílio, regra que requer apenas vigor: jamais trazer as coisas para a criança, mas levar a criança até as coisas.

Jean-Jacques Rousseau – Gilles Deleuze (tradução de Hélio Rebello Cardoso Júnior)

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A Imaginação, por Charles Baudelaire

January 22nd, 2011


The Informer (1934) – A. Paul Weber

“Que misteriosa faculdade é essa rainha das faculdades! (…) A imaginação é a rainha do verdadeiro, e o possível é uma das esferas do verdadeiro. Positivamente, ela é aparentada com o infinito. (…) …todo o universo visível é apenas um lugar de imagens e de signos aos quais a imaginação deverá atribuir um lugar e um valor relativos; é uma espécie de alimento que a imaginação deve digerir e transformar.”

Baudelaire em Charles Baudelaire, Poesia e Prosa, organizada por Ivo Barroso com diversos tradutores.

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Filho do Kant Drogado e Enchendo o Saco

January 16th, 2011


Immanuel Kant – por Döbler

O filho do Kant conheceu o povo brasileiro e andou lendo Freud.

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Patrulhas Ideológicas

January 8th, 2011


James Rosenquist

“Em agosto de 1978, o filme Chuvas de Verão, do cineasta Cacá Diegues, foi recebido com frieza siberiana pela crítica (que já tinha apedrejado o trabalho anterior do diretor, Xica da Silva). Louco de raiva, o cineasta deu uma longa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo e fez uma denúncia das “Patrulhas Ideológicas”. As patrulhas seriam compostas por jornalistas de esquerda, a maioria ligada ao então clandestino Partido Comunista, e teriam a missão de descer o cacete em qualquer produto cultural que não falasse exclusivamente das mazelas da classe trabalhadora. A discussão que se seguiu mobilizou cantores, escritores, dramaturgos e humoristas. A encrenca rendeu até o livro Patrulhas Ideológicas, de Carlos Alberto M. Pereira e Heloísa Buarque de Hollanda (Brasiliense, 1980). No livro, Cacá deu nova entrevista e definiu melhor o modus operandi da conspiração silenciosa da qual se julgava vítima: “O que existe é um sistema de pressão, abstrato, um sistema de cobrança. É uma tentativa de codificar toda manifestação cultural brasileira. Tudo o que escapa a esta codificação será necessariamente patrulhado”.

As patrulhas ideológicas denunciadas por Cacá nunca foram extintas, mas pioraram muito com o tempo. As patrulhas daquela época eram bitoladas, mas tinham, no geral formação cultural sólida. As de hoje acham que formação cultural sólida é coisa de burguês neoliberal decadente. Esta é, enfim, a conspiração mais inútil e sem propósito do livro. Passe para o verbete seguinte.”

Do livro Conspirações, Edson Aran

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