Nietzsche e a Reversão do Platonismo, Por Liszt Vieira

Beneath the Sargasso Sea (Henry Powers)
“Quando Sócrates pergunta “o que é a beleza?”, o seu interlocutor, Hípias, não hesita em responder que a beleza são corpos belos, obras belas. Mas Sócrates rejeita os exemplos de coisas belas, de causas eventuais, e exige a definição da beleza enquanto tal.
Se Sócrates recusa de Hípias, como resposta, causas eventuais ou exemplos tirados do mundo sensível em que vivemos, obviamente a pergunta socrática remete a uma outra ordem. Sócrates não quer saber o que são as coisas na medida em que elas possuem a qualidade de beleza, mas o que vem a ser a beleza em si mesma. Assim, a pergunta Socrática nos afasta das percepções sensíveis e nos coloca no domínio das essências.”
“O platonismo hoje em dia parece uma fábula. Mas se há algo do platonismo que permanece na modernidade é a vontade de Platão, uma vontade de selecionar, de buscar a verdade, a pureza, a essência. A vontade de Platão atravessa as idades. Nietzsche, ao se deparar com Platão, não está apenas fazendo um inventário histórico ou uma história da filosofia. O que faz na realidade é uma crítica dos valores que se instituíram no Ocidente graças à contribuição do platonismo. Por exemplo, a história da filosofia é marcada pela busca da verdade, das essências, das naturezas como se, por detrás daquilo que aparecesse houvesse uma verdadeira natureza. Ela é marcada pela questão “o que é isso?”, questão essa que nos remete sempre para o domínio das significações.”
“Reverter o platonismo significa descobrir no seio da obra platônica as motivações de Platão.”
“A genealogia substitui a pergunta “o que é? ” pela pergunta “quem quer?”. É essa a questão da genealogia: quem quer a verdade? A genealogia quer buscar esse elemento diferencial de onde são criados todos os valores e a verdade para Nietzsche é um valor. Isso supõe o avaliador que é sempre alguém que aprecia e cria valores. Por detrás de qualquer valor dado como fato, há sempre uma força, há sempre uma vontade que quer um valor.”
“Na realidade, o que Nietzsche faz é desnaturalizar a verdade, isto é, desnaturalizar as essências, acabar com a dualidade que Platão instaura entre essência e aparência. Porque a essência de uma determinada coisa vai ser dada em função da força que se apodera daquela coisa. A essência de alguma coisa tem uma história. Não podemos imaginar que aquela coisa possua uma natureza idêntica a si mesma que permanece ao longo de metamorfoses acidentais.”
“O elemento diferencial de onde emanam todos os valores, Nietzsche o chama de Vontade de potência, que não significa de modo algum vontade de poder, mas sim de poder da vontade.”
“(…)num mundo em devir, nada é idêntico a si mesmo, tudo difere. O ser se diz num único sentido e só se diz daquilo que difere. Uma única voz para tudo o que difere sem que haja possibilidade de sobrevivência de uma identidade, de uma essência eterna, imutável. De uma vez por todas fica abolido o mundo transcendente que servia de modelo para o mundo imanente que nós habitamos.”
“O simulacro não se submete à ação do modelo. Ele é uma imagem dessemelhante, é uma imagem falsa, é uma máscara. O que Nietzsche quer é fazer uma filosofia das máscaras, uma filosofia do simulacro sem que haja por detrás de uma máscara uma verdadeira natureza. Por detrás de uma máscara, diz Nietzsche, encontramos sempre uma outra máscara e ainda outra, e ainda outra. Nós somos seres múltiplos, seres de mil faces. Ele dizia: “eu sou todos os nomes da história”. Há uma afinidade de Nietzche com os sofistas.”
“O que Platão quer, quando elabora o mundo da verdade, é promover no mundo sensível uma seleção. A metafísica, para Nietzsche, implica numa moral porque o que Platão recusa, nessa seleção, é o domínio das diferenças.”
“Gilles Deleuze, em “Diferença e Repetição” pretende liberar o conceito de diferença do domínio da representação. Ele quer pensar a diferença em si mesma. É um livro de inspiração Nietzscheana, inspirada nos dois conceitos de Nietzsche: vontade de potência e eterno retorno. Dentro do modelo da representação a diferença só pode ser pensada, mediada pela identidade de um conceito. Só pensamos a diferença em termos de alteridade, oposição ou contradição. Mas a diferença pura, pensar algo que difere de si mesmo, isso o pensamento clássico, representativo, não dá conta. Eis porque a diferença é o grande mal.”
“Foucault faz uma revisita a Nietzsche e vai aprofundar, apreender o método genealógico aplicado à história. “Vigiar e Punir” é um exemplo disso.”
“Os escravos podem dominar os senhores. As forças ativas ou nobres são as capazes de transformação, e as forças reativas ou vis são as conservadoras. Nesse sentido, Nietzsche diz que é preciso proteger o forte contra o fraco. Não se trata de um ponto de vista dialético porque Nietzsche não é dialético. A dialética tem que ser antes explicada por esse jogo de forças: o domínio de forças sobre outras, impondo sobre elas sentido e valor para poder dominá-las. A história é uma sucessão de forças em relação, que Nietzshe chama vontade de poder. Essa relação de forças não é somente mecânica. Há um querer interno que faz com que uma força se relacione com outra força. Esse querer é a vontade.”
“Rejeitar o modelo de representação, de obediência, mergulhar no caos e no delírio que está no fundo do nosso espírito, tornar visível o que é invisível, buscar as afecções sensitivas puras, buscar as “potências não orgânicas da vida” (Worringer), eis para Deleuze, a função da arte, da ciência, do pensamento.”
Nietzsche e a Reversão do Platonismo – Por Liszt Vieira
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Categoria Divagações Teóricas | Comente! (0)
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