Poesias Anarcofágicas #04

August 17th, 2010


Jacek Yerka

Enquanto a verdade é a plenitude da alma que pode às vezes transbordar na pura insipidez da linguagem, pois nenhum de nós pode jamais expressar a exata medida de suas necessidades ou de seus pensamentos ou de suas tristezas, e a fala humana é como um tambor rachado em que tamborilamos ritmos ásperos para os ursos dançarem, desejaríamos compor uma música que derretesse as estrelas. (Flaubert, em Madame Bovary)

ciber-drummonstro-versão-beta-test

(para o falecido parceiro de rezar o terço, Carlos Drummond, e para o deus-menor dos cataventos – inventor do algodão-doce de micro-ondas e do chocolate de poesia, que consumido em excesso tem efeitos alucinógenos)

Quando nasci [feito estatística
do espermatozoide privilegiado
pela loto-vida obrigatória]
um anjo torto [ângulo de trinta e sete graus
pitagórico feito vitamina-grega]
desses que vivem na sombra [o habitat
é a menor quantidade de luz
de thomas edison & coco chanel
com seu blush voluptuoso
20 gramas de auto-estima bruta
feito cigarrilha-leque-charme
de madame bovary]
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
[drummond morreu,
e o anjo-torto versificou:
quando ele morreu, eu
aqui nas sombras,
disse: vai carlos! ser lanche de vermes,
como sartre e schopenhauer,
que vagam
feitos anjos tortos
pelas sombras
mandando gauches
pra vida]


Jacek Yerka

matei meu amor – para Juliana Zavadzki

engatilho beijos:
o coração dispara

climografia

a previsão
dos versos
para hoje
é mínima
de Dr. Jekyll
e máxima
de Mr. Hyde


Jacek Yerka

apoteose a manuel rosa

dizem da rica poesia de manuel rosa
eu acho que rica é o caralho
e o manuel rosa é um babaca
pronto acabou

Monólogo curto com título longo dos neurônios que comem pizza amanhecida de maçã newtoniana na neurândia poética dos poetas e pseudo-poetas fazedores de títulos longos – para o meu grande amigo Milton Diogo

maestro
tricotando o vento
rodeado por borboletas folk-rock’s
da zombie’s guarda
e o segurança do anjo da guarda trabalha por dois
na minha matemática onírica miltaniana
e o maestro encerra a orquestra sinfônica cartesiana dos gregos & loucos
nerds & poetas
e o maestro arrota
a sopa de letrinhas
& números
na masturbação pura dos neurônios nas tavernas de rpg & sátiras com a estupidificante estrutura social brasileira
dos poetas padres putas policiais pastores políticos e puta que pariu porque professor
gênio, feito mi[Ne]wton sem maçã
porque mora no topo da macieira
na casa da árvore onírica dos poetas
& teoremas do mundo
& filosofias arrotadas
no silêncio da madrugada
das coisas
dos eixos
dos gênios
amigos
e amigos
dos gênios


Jacek Yerka

poesia descivilizada

quero ver deus
fazer um mundo
que controle os relógios
de relógios
que controlam o mundo
estamos fartos
afogados
ah, puta que pariu
queimem estes celulares
declarem feriado eterno
façam do ócio o ópio do povo
porque não tem messias
nem deus
nem nada
esse mundo é o paraíso
e merece masturbações artísticas
com altares de
leques
vidros
pinturas
Tom Zé & Jorge Ben
dos alquimistas que vão dormir no hilton hotel
& das prostitutas da augusta & de roberto piva
que transgrediu dentro da transgressão
& freud
que fez loucura
cheirando carreiras
um puta imbecil
& do shopping tatuapé & de nenê altro
cão sem dono
peregrinador de bares & becos fedidos
feito flâneur de baudelaire
punk amaldiçoado pelo tempo
e engolido pelo suor industrial
nas praças
bêbados
cigarros
putas
cafés

deus

um puta louca
de batom vermelho-
-margarina

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