Micro-Dossiê Selecionado – Roberto Piva

August 28th, 2010

Eu aprendi com Rimbaud
& Nietszche os meus
toques de Inferno
(Anjos de Freud,
sustentai-me!)
& afirmando isto
através dos quartos sem tetos
& amores azuis
eu corro até a colher de espuma fervente
driblando-me no cemitério
faminto da última FOME
com tumbas & amantes cheios de pétalas
porque o céu foi nossa última chance
esta noite”.
- Piazza VIII / Roberto Piva

Piva deixou a dimensão-suporte de sua obra pra partir integralmente para a dimensão da sua obra. Morreu para validar que em cada verso jaz seu corpo, orgânico, latente, vivo e em pleno delírio. Roberto Piva, hoje, é um anjo-saci da poesia, da antítese paradigmática, da rebeldia lírica e das narcotizações versificadas. Segue uma antologia de ensaios sobre o autor.

Relação de Roberto Piva & Arthur Rimbaud nos livros Paranóia e Illuminuras, Gravuras Coloridas

À semelhança de James Joyce, Jack Kerouac e Antonin Artaud, Piva elabora sua poesia adotando o “fluxo de inconsciência” como método, a linguagem, portanto, se parte em signos sinérgicos que traduzem o amálgama de sensações e imagens da civilização ocidental – um tempo de violência nos sentidos.
(…)
A cidade é o campo de atuação do caos, onde visões e sons conflitam; onde o homem sedimenta-se nos instintos de morte e desespero deslocando-se da razão; onde cada cidadão é uma ferramenta do progresso e o avanço industrial é o substrato da divisão social e da subversão do caráter humano; onde o poeta questiona seu estar-no-mundo; onde Deus é ausente.

Poeta em São Paulo: Paranóia de Roberto Piva

Piva é um poeta dos anos 60 e, igualmente, um poeta de hoje, que não parou de produzir e de se renovar.
(…)
Tudo o que Paranóia possa ter de alucinado, registro de visões que seu autor insinua haverem sido induzidas por drogas e fortes bebedeiras, ganha vigor pela simultânea afirmação do seu realismo, de que as imagens não representam apenas um mundo onírico, porém concreto, que está aí.

Roberto Piva: Literatura e (homo) sexualidade como transgressão, mística e resistência

Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e jovem.
(…)
Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de “se assumir” gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.

Manifesto Utópico-Ecológico em Defesa da Poesia & do Delírio

1 – Transformar a Praça da Sé em horta coletiva & pública.
2 – Distribuir obras dos poetas brasileiros entre os garotos (as) da Febem, únicos capazes de transformar a violência & angústia de suas almas em música das esferas.
3 – Saunas para o povo.
4 – Construção urgente de mictórios públicos (existem pouquíssimos, o que prova que nossos políticos nunca andam a Pé ) & espelhos.
5 – Fazer da Onça (pintada, preta & suçuarana) o Totem da nacionalidade. Organizar grupos de Proteção à Onça em seu habitat natural. Devolver as onças que vivem trançadas em zoológicos às florestas. Abertura de inscrições para voluntários que queiram se comunicar telepaticamente com as onças para sabermos de suas reais dificuldades. Desta maneira as onças poderiam passar uma temporada de 2 semanas entre os homens & nesse período poderiam servir de guias & professores na orientação das crianças cegas.
6 – Criação de uma política eficiente & com grande informação ao público em relação aos Discos-Voadores. Formação de grupos de contato & troca de informação. Facilitar relações eróticas entre terrestres & tripulantes dos OVNIS.
7 – Nova orientação dos neurônios através da Gastronomia Combinada & da Respiração.
8 – Distribuição de manuais entre sexólogas (os) explicando por que o coito anal derruba o Kapital
9 – Banquetes oferecidos à população pela Federação das Indústrias.
10 – Provocar o surgimento da Bossa-Nova Metafísica & do Pornosamba. O Estado mantém as pessoas ocupadas o tempo integral para que elas NÃO pensem eroticamente, libertariamente. Novalis, o poeta do romantismo alemão que contemplou a Flor Azul, afirmou: “Quem é muito velho para delirar evite reuniões juvenis. Agora é tempo de saturnais literárias. Quanto mais variada a vida tanto melhor “.

ellenismos pivianos

FRAGMENTO
Ode a Fernando Pessoa, 1961
Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente dorme, e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite.
(…)
Ouçamos a bossa nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda diretamente do coração do morro(…)

Tributo a Roberto Piva

Roberto Piva era a inquietação em pessoa. Criou versos com imagens que me impressionaram profundamente. Um exemplo: “arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos”. E o homem não gostava de escrever. Sentia febre e mal-estar depois da incorporação. Para Piva, se Freud não tivesse existido as pessoas andariam pelas ruas arrancando seus próprios olhos. Era um xamã sábio e ilustrado. Evoé!
(Edson Cruz, poeta e editor)

poeta em pele de tigre

Ignorou os prêmios, a bajulação a editores e comandantes dos suplementos culturais. A irregularidade na divulgação de seu trabalho, aliada à coerência de uma vida libertária, de uma poesia visceral, sem concessões, poderia ter privado algumas gerações do contato com um dos maiores poetas brasileiros da atualidade.
(…)
RL – Na sua juventude (início dos anos 50) a novidade literária era o concretismo. Como você via esse movimento?
RP – Eu não me interessava por ele. Era um pequeno grupo que nunca me despertou interesse, eu não tomava conhecimento disso. Não me interessava, como não me interesso hoje. Esse negócio me parecia linha de montagem e, em 1936, o genial Charles Chaplin, já tinha “desmontado” essas estruturas com o filme Tempos Modernos. Portanto, não entrei nessa.
(…)
RL – A poesia portuguesa do século XX tem muitos autores influenciados pelo surrealismo, bem mais que a brasileira. Que autores portugueses lhe interessam?
RP – Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mario Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, enfim, vários autores que se aproximaram bem mais do surrealismo que os autores nacionais. Aqui, só o Murilo Mendes tinha uma vertente surrealista muito forte.
(…)
RL – Em 40 anos de poesia, não é possível aproximá-lo de nenhum grupo ou corrente literária brasileira. Sua “linhagem poética” remonta a Blake, Rimbaud, os surrealistas, os beats. Você não veio de “escola” alguma. Você acredita estar fazendo “escola”, ou seja, existe uma poesia hoje inspirada em Roberto Piva?
RP – Tem vários poetas jovens que escrevem influenciados por mim.  Não posso falar sobre o modo de vida deles, muitos não conheço pessoalmente, conheço apenas a poesia, mas vejo influências.

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Um Comentário para “Micro-Dossiê Selecionado – Roberto Piva”

  1. Biblioteca da Academia Arcana | on November 2, 2010 21:58

    [...] Micro-Dossiê Selecionado – Roberto Piva [trechos selecionados] Breve Antologia – Milton Diogo Comentado [ensaio] Gilbert Antônio: [...]

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