Subterrâneo Úmido do Arcabouço Artístico*

May 25th, 2010

moritz schell

moritz schell

O mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo
e nunca termina.
(A. R. de Sant’Anna)

Atmosfera incerta, corrida da posse, tempestades emocionais, abalos imprevisíveis: o cenário da vida pós-moderna é perturbador. Meio à rotina exaustiva, de suor industrial e boletos pendentes, o sexo se transformou em uma terapia para aliviar as tensões cotidianas. Tal uso do ato sexual coisificou e banalizou o ritual como algo necessário à saúde; como entretenimento volátil, corriqueiro, efêmero; como um anestésico para o tédio existencial. A arte erótica vem na tentativa de resgatar os contornos artísticos do sexo, sublinhando sua faceta de contemplação máxima da existência.

Zhou Chunyazhou chunya

O objeto da arte erótica varia, não sendo exclusivamente o corpo humano, tampouco somente o ato sexual, mas qualquer coisa que suscite prazer. A arte erótica não precisa necessariamente das roupagens do amor, se valendo, por vezes, das tutelas do desejo carnal, sem enlatados simbólicos, sem idealizações para além do prazer corporal, feita só de estímulos libidinosos.

van-gogh

van gogh

A indecência cultural do corpo nu é perdoada quando nos moldes da arte, e banalmente exaltada quando nos moldes da pornografia. Portanto a arte erótica mantém uma mesopotâmica distância da pornografia. A arte erótica é sensual, enquanto a pornografia é vulgar. A arte erótica é humana, enquanto a pornografia é animalística. A arte erótica é um concerto de música clássica, enquanto a pornografia é uma violenta rave. A arte erótica é suspiro, enquanto a pornografia é grito. A arte erótica é da ordem das emoções-contemplação, enquanto a pornografia é da ordem das emoções-choque. A arte erótica é narcótico, enquanto a pornografia é entorpecente. A arte erótica é leve, enquanto a pornografia é pesada. Todavia, mesmo com as distinções, toda pornografia tem um pouco de erotismo, e todo erotismo tem um pouco de pornografia.

Victor Ivanovskivictor ivanovski

A produção de arte erótica representa um percentual baixo comparado a outros gêneros de arte e, mesmo de baixa produção, o erotismo nunca é antiquado, portanto a arte erótica sempre será válida; diferente, por exemplo, da arte sacra – que um dia, com o fim das religiões, será condenada ao esquecimento ou a fins exclusivamente históricos.

Para além de nutrir um senso estético e de resgatar os contornos artísticos do sexo, a arte erótica também é um poderoso afrodisíaco, seja inspirando imagens mentais com seus quadros, desenhos e fotografias; seja inspirando enredos de acasalamento com seus HQ’s, crônicas e narrativas; seja inspirando o lirismo sexual com seus poemas.

*uma referência ao trecho do poema de Carlos Drummond “Amor, pois que é uma palavra essencial”: Quantas vezes morremos um no outro, / no úmido subterrâneo da vagina, / nessa morte mais suave do que o sono: / a pausa dos sentidos, satisfeita.

Gostou? Tweete, Curta e aperta o +1!

Leia também:




6 Comentários para “Subterrâneo Úmido do Arcabouço Artístico*”

  1. gilvas on May 25, 2010 23:25

    a fronteira entre erótico e pornográfico, enfim, é fluida.

  2. Milton Diogo on May 26, 2010 15:25

    Leia Milo Manara!

  3. Inã Cândido on May 28, 2010 12:34

    (Correção)

    Muito bom!

    Gostei de tudo:

    As poesias, as fotos, a sua descrição e comparação; em especial sua alusão ao sexo sob as circustâncias do tédio existencial.

    Abraços!

  4. gilbert antonio on June 22, 2010 22:34

    Desconcertantemente belo e impassível diante de uma beleza sem retoques. Visceral.

    beijo escancaradamente sincero.

  5. Tweets that mention Subterrâneo Úmido do Arcabouço Artístico* | -- Topsy.com on September 8, 2010 17:24

    [...] This post was mentioned on Twitter by andrehp, ISAAC ELIAS. ISAAC ELIAS said: RT @andrehp: Subterrâneo Úmido do Arcabouço Artístico http://anarcofagia.com/sss/2010/05/subterraneo-umido-do-arcabouco-artistico/ [...]

  6. Biblioteca da Academia Arcana | on November 6, 2010 02:21

    [...] [aforismos] Para Fotógrafos – Estupre Paradigmas [ensaio] A Originalidade é Possível? [ensaio] Subterrâneo Úmido do Arcabouço Artístico [...]

Trackback URI | Comments RSS

Leave a Reply

Nome (obrigatório)

Email (obrigatório)

Seu Site

Comentário