Cético versus Contraditório

February 15th, 2010

contraditorio

A diferença entre o cético e o estupido é que o primeiro é proparoxítono. Outros dois proparoxítonos estupidificados é o agnóstico e o eclético. Quando Sócrates disse “tudo o que sei é que nada sei”, além de inspirar um álibi verbal para criminosos do mundo inteiro, criou uma das primeiras asneiras que ficou famosa.

Se dizer cético não é ser crítico, descolado, esclarecido, intelectual; é dizer que se vive sentado sobre um ponto de interrogação gigante, enquanto as pessoas vivem suas vidas do lado de fora do sopão de dúvidas.

O primeiro ponto é que, assim como seguir o “Carpe Diem”, é impossível ser cético. Isso porque, na escala de credulidade, o ponto da crença oscila entre o verdadeiro e o falso, nunca situado no neutro – como alegam ser possível, os céticos. Você sempre terá uma predileção para acreditar ou não em algo, mesmo que tenha vaga ou imprecisa consciência da inclinação.

Outro ponto é que duvidar é uma das coisas mais chatas que o homem faz, e piora quando a dúvida toma dimensões maiores do que deveria ocupar, tornando-se uma paranoia existencial.

Por fim, ao afirmar “eu duvido de tudo” veste-se uma postura de dúvida global. Ora, quem duvida de tudo, duvida da afirmação de que se deve duvidar de tudo, caindo em um paradoxo. Logo, é impossível, filosoficamente, afirmar tal coisa.

Não quero parecer rabugento e levantar a ideia de verdades absolutas. Entre ter a certeza e a dúvida, fico com as verdades provisórias, voláteis, efêmeras e mutantes. É interessantíssimo questionar as ideias, afinal, elas estão aí para serem contrariadas, refutadas, ajustadas, reguladas, rabiscadas, trucadas, sucumbidas, etc.

Posso ser ateu até o próximo segundo, brindar Marx até ano que vem, determinista até tempo indeterminado, consumista até a próxima crise, paranoico até o próximo minuto, posso, enfim, permutar as peças do meu ideário como quiser e quando quiser, sem xiitismo ou chatice, mesmo sendo muito contraditório.

Amanha posso até pensar o contrário…

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4 Comentários para “Cético versus Contraditório”

  1. Milton Diogo on February 17, 2010 16:01

    Cara, tu voltou com tudo. Essa foi uma verdadeira filosofada, grande gafanhoto! Que venham muitas outras!

  2. Rafelson on February 17, 2010 16:07

    Caro André, creio que suas colocações são altamente rentáveis em termos filosóficos mas, não creio de todo, que o cético é um contraditório em sí. A contradição parte de um outro presuposto( claro, conheces bem). Muitos dos seus textos mostram um ceticismo – levando isso em consideração, neste caso, você também estaria sendo contraditório.

    Breve observação.
    Grande abraço.

  3. André HP on February 17, 2010 18:51

    @Rafelson
    O contraditório tem esse poder de ser o antônimo de contraditório. Seria uma meta-contradição, e muito cara de se pensar. Apreciei seu comentário.

    Forte Abraço!

  4. Tatyla on February 18, 2010 23:48

    Acho muito produtivo ler seus textos, assim como conversar com você sempre é. Esse trecho que segue foi meu preferido:
    “Entre ter a certeza e a dúvida, fico com as verdades provisórias, voláteis, efêmeras e mutantes.”
    Bom é ter consciência da transitoriedade daquilo que pensamos, vivemos, fazemos… e melhor é estar sempre pronto para “questionar as ideias, afinal, elas estão aí para serem contrariadas, refutadas, ajustadas, reguladas, rabiscadas, trucadas, sucumbidas, etc.”
    Esta disposição demonstra a real inteligência. O ser humano é complexo e contraditório, insistir em permanecer fechado a uma única idéia, teoria… é estagnar-se, é perder-se no tempo. Não definir-se em momento algum, ser eclético, achar que tudo e qualquer coisa serve, é não ter sentido. O primordial é permanecer em um estado dialógico com os outros, com o mundo, permitindo-se a si, e a sua consciência, percorrer de um pólo ao outro da razão, sem se quer se contradizer, apenas transitando pelas inúmeras possibilidades de se ver, sentir, pensar e viver…

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