Cético versus Contraditório

A diferença entre o cético e o estupido é que o primeiro é proparoxítono. Outros dois proparoxítonos estupidificados é o agnóstico e o eclético. Quando Sócrates disse “tudo o que sei é que nada sei”, além de inspirar um álibi verbal para criminosos do mundo inteiro, criou uma das primeiras asneiras que ficou famosa.
Se dizer cético não é ser crítico, descolado, esclarecido, intelectual; é dizer que se vive sentado sobre um ponto de interrogação gigante, enquanto as pessoas vivem suas vidas do lado de fora do sopão de dúvidas.
O primeiro ponto é que, assim como seguir o “Carpe Diem”, é impossível ser cético. Isso porque, na escala de credulidade, o ponto da crença oscila entre o verdadeiro e o falso, nunca situado no neutro – como alegam ser possível, os céticos. Você sempre terá uma predileção para acreditar ou não em algo, mesmo que tenha vaga ou imprecisa consciência da inclinação.
Outro ponto é que duvidar é uma das coisas mais chatas que o homem faz, e piora quando a dúvida toma dimensões maiores do que deveria ocupar, tornando-se uma paranoia existencial.
Por fim, ao afirmar “eu duvido de tudo” veste-se uma postura de dúvida global. Ora, quem duvida de tudo, duvida da afirmação de que se deve duvidar de tudo, caindo em um paradoxo. Logo, é impossível, filosoficamente, afirmar tal coisa.
Não quero parecer rabugento e levantar a ideia de verdades absolutas. Entre ter a certeza e a dúvida, fico com as verdades provisórias, voláteis, efêmeras e mutantes. É interessantíssimo questionar as ideias, afinal, elas estão aí para serem contrariadas, refutadas, ajustadas, reguladas, rabiscadas, trucadas, sucumbidas, etc.
Posso ser ateu até o próximo segundo, brindar Marx até ano que vem, determinista até tempo indeterminado, consumista até a próxima crise, paranoico até o próximo minuto, posso, enfim, permutar as peças do meu ideário como quiser e quando quiser, sem xiitismo ou chatice, mesmo sendo muito contraditório.
Amanha posso até pensar o contrário…
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Categoria Alquimia Cerebral | Comentários (4)
4 Comentários para “Cético versus Contraditório”
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Cara, tu voltou com tudo. Essa foi uma verdadeira filosofada, grande gafanhoto! Que venham muitas outras!
Caro André, creio que suas colocações são altamente rentáveis em termos filosóficos mas, não creio de todo, que o cético é um contraditório em sí. A contradição parte de um outro presuposto( claro, conheces bem). Muitos dos seus textos mostram um ceticismo – levando isso em consideração, neste caso, você também estaria sendo contraditório.
Breve observação.
Grande abraço.
@Rafelson
O contraditório tem esse poder de ser o antônimo de contraditório. Seria uma meta-contradição, e muito cara de se pensar. Apreciei seu comentário.
Forte Abraço!
Acho muito produtivo ler seus textos, assim como conversar com você sempre é. Esse trecho que segue foi meu preferido:
“Entre ter a certeza e a dúvida, fico com as verdades provisórias, voláteis, efêmeras e mutantes.”
Bom é ter consciência da transitoriedade daquilo que pensamos, vivemos, fazemos… e melhor é estar sempre pronto para “questionar as ideias, afinal, elas estão aí para serem contrariadas, refutadas, ajustadas, reguladas, rabiscadas, trucadas, sucumbidas, etc.”
Esta disposição demonstra a real inteligência. O ser humano é complexo e contraditório, insistir em permanecer fechado a uma única idéia, teoria… é estagnar-se, é perder-se no tempo. Não definir-se em momento algum, ser eclético, achar que tudo e qualquer coisa serve, é não ter sentido. O primordial é permanecer em um estado dialógico com os outros, com o mundo, permitindo-se a si, e a sua consciência, percorrer de um pólo ao outro da razão, sem se quer se contradizer, apenas transitando pelas inúmeras possibilidades de se ver, sentir, pensar e viver…