A Arte de Atribuir Sentido

Viana prestigiou o nascimento de três das escolas de psicoterapia: Freud, Adler e Frankl. Este último é o fundador da logoterapia – terapia psicológica que pressupõe que o ser deseja “sentido” para existência.
Viktor Frankl defendia que achar o sentido existencial era “a última liberdade humana”. O psiquiatra escreveu o livro intitulado “A busca de sentido” onde narra sua passagem pelo campo de concentração nazista, quando dá início ao embasamento da sua terapia.
Mesmo com a emancipação sexual (Freud) e a valorização do Self (Adler), Frankl afirmou que o indivíduo ainda pode sentir um “vazio existencial”, que seria suprimido com a “plenitude do sentido”.
Uma das maneiras que encontrei para preencher as lacunas existenciais foi sofisticando a atribuição de sentido ao mundo – e não apenas à existência. Essa atribuição é uma forma de fixar significados que favoreçam o êxtase existencial. O prazeroso esforço é de fazer uma releitura do mundo, sendo um processo contínuo na medida em que os significados são extremamente voláteis e efêmeros – e as realidades cotidianas são diferentes.
Um escritor oferece o acesso de uma realidade imaginativa. Um pintor faz o mesmo combinando pinceladas que são traduzidas de uma forma muito mais subjetiva – gestalt, psicodinâmica das cores, reações, etc. Um músico o faz por timbres e harmonias que permite uma outra dimensão apreciativa. Enfim, a arte, quando não reproduz a realidade, é uma releitura íntima da realidade.
A façanha em tese é fugir do tédio existencial traduzindo a realidade com uma postura muito mais artística e menos racional. Essa ideia já foi presente na literatura (Pollyanna – Eleanor H. Porter) e no cinema (A Vida é Bela – 1997). No livro Pollyanna, por exemplo, a menina aprende a “brincadeira do contente”, que é uma arte de atribuir sentido às coisas ruins:
- Como é que se joga? – quis saber Nancy.- Não entendo muito de jogos.
Poliana sorriu e depois de um suspiro, disse:
- Tudo começou por causa de umas muletas que vieram na caxa de donativos para o missionário.
- Muletas? – admirou-se Nancy.
- Isso mesmo. Eu tinha pedido uma boneca a papai e, quando a caixa chegou, só havia um par de muletas para criança. Foi assim que começou.
- E onde é que está o jogo?
- Bem, o jogo se resume em encontrar alegria, sejá lá no que for – conluiu Poliana, séria. – Começamos com as muletinhas.
- E onde está a alegria – estranhou Nancy. – Encontrar muletas em lugar de bonecas…
- É isso aí – e a menina bateu palmas de contente. – No começo também não entendi.
Depois, com calma, papai me explicou tudo.
- Então, explique-me também.
- Fiquei alegre justamente porque não precisava de muletas – esclareceu Poliana. – Viu como é fácil?
Pode ser uma forma de forjar a realidade ou, talvez, fugir dela. Como também pode ser uma forma de negar a realidade em que o ser é escravo da carne, preso em uma angustiante pós-modernidade – onde é extremamente visível a insignificância humana para com o universo.
Há substâncias que densificam a imposição de sentido – nicotina, cafeína, thc, ácido lisérgico, etc. Mas são, obviamente, prescindíveis no esporte de atribuir sentido.
Atribuir, enfim, é mais do que inevitável: é necessário.
O que achas?
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Nota sobre a imagem: fiquei em uma angustiante dúvida de que imagem usaria para ilustrar o texto. No fim, escolhi esta que, com ou sem sentido, fica por conta do leitor atribuir o sentido que quiser.
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Categoria Alquimia Cerebral | Comentários (3)
3 Comentários para “A Arte de Atribuir Sentido”
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O sentido de algo para mim, não vai além do MEU sentido. A atribuição de sentido é uma forma de objetivarmos nossa subjetividade. É uma atribuição particular, exclusiva. Ao passo que somos seres dotados de particularidades e singularidades, não atribuiremos um mesmo sentido a algo que nos seja comum. Isso é inconsciente, e concordo que seja necessário.
Muito interessante esse texto, o existêncialismo é um dos meus temas favoritos, apesar de pouco saber a respeito (no caso do conhecimento filosofico em si) considero ele intrigrante em diversos aspectos.
Diante da nadificação da existência de Deus, como é o seu caso e o meu (pelo que sei você também é ateu) procuramos preenxer esse vazio existencial de alguma maneira, nem sempre satisfatória, porém única.
Um grande abraço!
a-ha. DUCARALHOESSAVIAGEM.