Invasões Irrefreáveis

October 13th, 2009

festa

No copo de café, muitos reflexos. Dedos trêmulos saltitavam violentamente pela máquina de escrever, o tédio de noites mal dormidas rasgava as cortinas mofadas, o odor de móveis velhos confundia-se com o cheiro podre de masturbação. Sustentava a auto-estima em um pêndulo, oscilando dos narcóticos baratos aos delírios paranoicos.

Sentia-me em um universo monótono, de cenário decorado e atmosfera mapeada. Até que, meio a tanta indolência, um barulho invade os tímpanos: alguém esmurrou cordialmente a porta. Fui abrir com uma angustiada surpresa. Ninguém podia visitar-me. Eu era um felino silvestre, um nativo que fugiu da tribo, um cão sem família. Eu era absolutamente sozinho.

A porta abriu e um facho de luz insuportável cegou-me. Então, um homem entrou em minha casa. Encostei a porta e voltei para meu etílico quarto, sem importar-me com o visitante.

Alguns minutos passaram e ouvi a porta abrir novamente. E, de tempo em tempo, a porta abria. Demorei para perceber que a minha casa estava infestada de pessoas.

Fui até a sala e constatei que não conhecia ninguém. Quem eram aquelas pessoas?!

Álcool, drogas, diálogos contundentes, sexo e alguns acordes de violão cercavam-me. Os entorpecentes potencializavam as relações afetivas, e o teor alcoólico engrenava panoramas carregados de loucuras e afetos. Percebi que era uma festa em minha casa com pessoas que eu nunca tinha visto, algumas delas encaravam-me com um certo tom de desdém, e outras manifestavam um olhar mais convidativo.

Perdia-me em tudo aquilo. Por vezes entrava em um pânico inexplicável, refugiando-me em meu quarto. O que mais me encantava era a imprevisibilidade de alguns encontros. Eles invadiam meu quarto, mobiliando-o de movimentos vertiginosos. Atirei-me ao clima sexual, descortinando paixões frágeis por sereias urbanas e sonhadores incorrigíveis.

Pessoas entravam e partiam. Estranhos e mais estranhos.

A madrugada, aborrecidamente, anunciou o fim da festa e todos partiram. A minha casa, novamente, esvaziou-se. Foi tudo tão rápido e confuso.

Demorei alguns goles secos de café para perceber que a festa era uma metáfora da minha vida, onde estranhos entravam e saíam do meu universo íntimo, subjetivando encontros e estabelecendo relações efêmeras.

Percebi que eu era uma máquina viva de produção de sentido e singularidade. Hoje, alimento saudades de tudo aquilo, nutrindo com a lembrança das dinamites sociais que habitaram a minha vida naquelas horas clandestinas.

André HP – escrito nessas horas em que o café e o desespero são a melhor combinação.

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4 Comentários para “Invasões Irrefreáveis”

  1. adv on October 15, 2009 21:23

    Grato!!! Adorei o “final”, se encontrar uma forma de bloquear a criação de sentidos me avise ;)
    abraços

  2. Diego (diih) on October 20, 2009 17:39

    Decidiu realmente desaparecer da face da Terra? Onde se encontra o senhor André? Man, precisando mto falar contigo. Abraço’

  3. Inã on November 14, 2009 13:24

    Eu gosto do seu estilo de escrita diferenciado. Através dele da para se ter uma idéia da sua visão e postura perante o mundo.

    Abraços e continue assim!

  4. Renato Bueno on April 7, 2011 13:49

    Caótico & Sublime
    Uma visão da besta! meus parabéns…

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